"Portanto, ninguém se glorie em homens; porque todas as coisas são de vocês, seja Paulo, seja Apolo, seja Pedro, seja o mundo, a vida, a morte, o presente, ou o futuro; tudo é de vocês, e vocês são de Cristo, e Cristo, de Deus."
PENSE NISTO: "O valor do homem é determinado, em primeira linha, pelo grau e pelo sentido em que se libertou do seu ego!" (Albert Einstein).

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Sem igreja, como congregar?

Peço desculpas por, mais uma vez, publicar um texto longo - são 3,5 páginas no Word -, mas tenho certeza que o conteúdo compensará o tempo investido na leitura. Esta é uma seqüência, apesar de não ser de minha autoria, do texto "Por que não sou membro de igreja?".

- por Wolfgang Simson | 04 de Dezembro de 2009

Bem antes de serem chamados de cristãos, dava-se aos seguidores de Jesus Cristo o nome de “o Caminho”. Um dos motivos era que eles literalmente haviam encontrado o caminho de como se vive. O cerne da igreja cristã não é apropriadamente espelhado por uma série de eventos religiosos em recintos eclesiásticos reservados especialmente para encontros com Deus, oferecidos por clérigos profissionais. Pelo contrário, está em questão o estilo de vida profético dos seguidores de Jesus Cristo no dia-a-dia, que, como famílias extensas espiritualmente ampliadas, respondem a perguntas formuladas pela sociedade – justamente no local em que isso é mais decisivo: em casa.

Depois da época de Constantino Magno, no século IV, as Igrejas Ortodoxa e Católica desenvolveram e sancionaram um sistema religioso que consistia de um templo “cristão” (a catedral) e de um padrão básico de culto que imitava a sinagoga judaica. Dessa maneira, um sistema religioso não expressamente revelado por Deus, a “categoga”, uma mescla de catedral e sinagoga, tornou-se a matriz dos cultos de todas as épocas subseqüentes. Tingido como um acervo gentílico de pensamentos helenistas que, p.ex., faz separação entre o sagrado e o secular, o conceito das categogas recebeu uma função de “buraco negro”, que suga pela raiz praticamente todas as energias de transformação social da Igreja e que por séculos deixou o cristianismo absorto em si próprio.

É verdade que Lutero reformou o conteúdo do evangelho, mas é notório que ele deixou as estruturas e formas exteriores da “igreja” intactas. As comunidades livres libertaram do Estado esse sistema eclesiástico, os batistas o batizaram, os quacres o drenaram, o Exército da Salvação o enfiou num uniforme, os pentecostais o ungiram e os carismáticos o renovaram, porém, até hoje, ninguém realmente o transformou. É precisamente essa hora que chegou agora.

Desde os tempos do Novo Testamento, não existe mais algo como a “casa de Deus”. Deus não vive em templos erguidos por mãos humanas. É o povo de Deus que constitui a Igreja. Por esta razão, a Igreja está em casa no exato lugar em que as pessoas estão em casa: nos lares. É ali que os seguidores de Cristo partilham a vida no poder do Espírito de Deus, tomam refeições em conjunto e, muitas vezes, nem mesmo hesitam vender propriedade particular, repartindo as bênçãos materiais e espirituais com outras pessoas. Instruem-se sobre como se inserir melhor, enquanto seres humanos, nas leis espirituais constitutivas de Deus em meio à vida prática – e justamente não por meio de palestras professorais, mas de modo dinâmico, no estilo de pergunta e resposta. É ali que oram, batizam e profetizam uns aos outros. É ali que podem deixar cair a máscara e até confessar pecados, porque conquistam uma nova identidade coletiva pelo fato de se amarem mutuamente, apesar de se conhecerem e constantemente tornarem a se perdoar e se aceitar.

A maioria das igrejas cristãs simplesmente é grande demais para realmente proporcionar espaço para a comunhão. Foi assim que se tornaram “comunidades sem comunhão”. As comunidades eclesiais do Novo Testamento eram invariavelmente grupos pequenos, com cerca de 15 a 20 pessoas. O crescimento não acontecia pelo inchaço aditivo, formando comunidades eclesiásticas grandes, estacionárias e que lotavam catedrais com 20 a 300 pessoas, mas pelo crescimento multiplicativo da amplitude, apresentando características de um movimento. As igrejas nos lares se subdividiam quando tinham atingido o limite orgânico de cerca de 15 a 20 pessoas. Esse crescimento multiplicativo pela base possibilitou aos cristãos que também se congregassem para reuniões celebrativas que abrangiam a cidade toda, como, p.ex., nos salões do Templo em Jerusalém.

Em comparação com isso, a congregação cristã típica de hoje é um triste meio-termo: estatisticamente ela não é mais uma igreja no lar, mas tampouco já é um evento celebrativo. Desta maneira, ela perde duas dinâmicas imaginadas pelo seu Inventor: a atmosfera dinâmica e relacional e o mega-evento eletrizante com efeito de sucção.

Igrejas nos lares não são conduzidas, p.ex., por um pastor, mas acompanhadas por um presbítero e por um dono de casa sábio e atento à realidade. As igrejas nos lares são interligadas em rede, formando movimentos, pela conexão orgânica dos presbíteros com o assim chamado ministério quíntuplo (apóstolos, profetas, pastores, evangelistas e mestres), que circula “de casa em casa” pelas igrejas, como um saudável sistema de circulação sangüínea. Nessa atividade as pessoas com dons apostólicos e proféticos (Ef 4.11,12; 2.20) desempenham um papel fundamental.

Sem dúvida os pastores são uma parte importante de toda a equipe, porém não podem ser mais que um fragmento dela, “para capacitar os santos para o serviço”. Seu ministério precisa ser complementado pelos outros quatro ministérios, do contrário as igrejas não apenas sofrem de enfermidades de carência espiritual, devido à dieta unilateral, mas igualmente os próprios pastores não conseguem mover nada, ficando impedidos de se realizar em sua vocação.

As igrejas do Novo Testamento nunca foram dirigidas por um “homem santo” ou “senhor pastor”, que se encontra numa ligação especial com Deus em substituição a outros e que regularmente alimenta consumidores relativamente passivos na fé, como se fosse um Moisés do Novo Testamento. O cristianismo assumiu das religiões gentílicas – ou, na melhor das hipóteses, do judaísmo – a categoria dos sacerdotes como um espaço amortecedor de mediação entre Deus e o ser humano.

Desde os dias de Constantino Magno, a rigorosa profissionalização da igreja já pesou tempo suficiente como maldição sobre a igreja, subdividindo artificialmente o povo de Deus em leigos infantilizados e clero profissional. Conforme o Novo Testamento, há “um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus” (1 Tm 2.5). Deus retém sua bênção quando profissionais da religião se imiscuem entre ele e o povo. O véu do Templo foi rasgado e Deus possibilita a todas as pessoas terem acesso a ele diretamente por meio de Jesus Cristo, o único Caminho e Advogado. Já não precisam manter contato com ele de forma mediada e indireta através do representante de uma casta religiosa. A fim de transportar para a prática o “sacerdócio de todos os que crêem”, que entrementes já foi impetrado há 500 anos pela primeira Reforma, o atual sistema de uma igreja profissionalizada e burocratizada terá de ser transformado radicalmente – ou afundará na irrelevância religiosa.

A burocracia é a mais diabólica de todas as formas de administração, porque, no fundo, levanta apenas duas perguntas: sim ou não. Nela, dificilmente há espaço para a espontaneidade, a humanidade e a vida genuína cheia de variações. Essa forma estrutural pode ser adequada a empreendimentos políticos ou econômicos, porém, não ao cristianismo. Deus parece estar em vias de libertar seu povo do cativeiro babilônico de burocratas eclesiásticos e de pessoas no exercício do poder religioso, bem como tornar a igreja novamente um bem comum. Faz isso ao colocá-la nas mãos de pessoas simples, chamadas por Deus para algo extraordinário e que, como nos dias de outrora, talvez ainda estejam cheirando a peixe, perfume ou revolução.

O “corpo de Cristo” é linguagem figurada para um ente profundamente orgânico e não para um mecanismo organizado. Localmente, a igreja consiste de uma pluralidade de famílias espirituais extensas, que estão organicamente interligadas em uma rede. A maneira como cada igreja está ligada à outra constitui uma parte integrante da mensagem do todo. De um máximo de organização com um mínimo de organismo é preciso passar novamente para um mínimo de organização com um máximo de organismo. Até aqui o excesso de organização muitas vezes sufocou o organismo “corpo de Cristo” como uma camisa-de-força – por medo de que algo pudesse dar errado. Contudo, medo é o oposto da fé, não representando exatamente uma virtude cristã sobre a qual Deus desejasse edificar sua igreja. O medo visa controlar – a fé sabe confiar. Por isto, controlar pode ser bom, mas confiar é melhor.

O corpo de Cristo foi confiado por Deus às mãos fiéis de pessoas que possuem um dom carismático especial: são capazes de crer que Deus ainda mantém o controle da situação, quando elas próprias já o perderam há tempo. Sem dúvida, o ecumenismo político e as hierarquias denominacionais tiveram sua chance de mostrar resultados no passado, mas não obtiveram êxito. Hoje é necessário criar redes regionais e nacionais que se baseiem sobre a confiança, para que formas orgânicas de cristianismo possam ser novamente desenvolvidas.

Visto de fora, o cristianismo se apresenta do seguinte modo, para muitas pessoas: pessoas santas dirigem-se, numa hora santa, num dia santo, a um prédio sagrado, a fim de participar de um ritual sagrado, celebrado por um homem santo em vestimentas sagradas, em troca de uma oferta sagrada. Uma vez que essas promoções regulares, orientadas pelo desempenho e chamadas de “culto divino”, requerem muito talento organizativo e consideráveis recursos administrativos, os rituais formalistas e modelos de comportamento institucionalizados rapidamente se solidificaram em tradições religiosas. Em termos estatísticos, o tradicional culto dominical de uma a duas horas de duração, com cifras do porte de 20 a 300 visitantes, é extremamente voraz em termos de recursos. Apesar disto, produz bem poucos frutos na forma de pessoas que estejam dispostas a mudar de vida como discípulos de Jesus. Em termos econômicos, o culto tradicional é uma estrutura que exige muitíssimo investimento, mas produz poucos resultados.

Na História, o desejo dos humanos de adorar “corretamente” a Deus levou aos constrangedores denominacionalismo, confessionalismo e nominalismo. É um enfoque que desconsidera que os cristãos são chamados a adorar “em Espírito e em verdade” – e não a repetir, em pequenas e grandes catedrais, hinos costumeiros. Essa mentalidade de programação, que se compraz em reiterar o proverbial “Amém” na igreja, ignora que toda a vida é pulsante, muda constantemente e é absolutamente informal.

Sendo o cristianismo “o caminho da vida”, ele é, por natureza, informal e espontâneo, e tão-somente o violentamos por meio dos rituais religiosos repetitivos. O cristianismo precisa afastar-se das impressionantes celebrações teatrais em recintos eclesiásticos e recomeçar a viver de modo impressionante a vida cotidiana. É isso que verdadeiramente serve a Deus.

Qual é o lugar mais simples para uma pessoa ser santa? Ela se esconde atrás de um grande púlpito e, trajada com túnicas sagradas, prega palavras santas a uma massa sem rosto, desaparecendo depois em seu gabinete. E qual é o lugar mais difícil e, por isto, mais significativo para uma pessoa ser santa? Em casa, na presença de sua família, onde tudo o que ela diz e faz é submetido a um teste espiritual automático e conferido com a realidade. Ali todo o farisaísmo devoto está irremediavelmente condenado à morte.

As parcelas mais significativas do cristianismo fugiram do enraizamento na família, como lugar flagrante do fracasso pessoal, para salões sagrados, onde se celebram missas/cultos artificiais bem afastados do cotidiano. No entanto Deus está em vias de reconquistar novamente para si as casas como locais de culto. Desta forma, a igreja retorna novamente às próprias raízes, ao lugar de onde ela procede, a um movimento de igrejas nos lares. Assim, a igreja volta literalmente para casa. Na última fase da história da humanidade, pouco antes do retorno de Jesus Cristo, fecha-se o círculo da história da igreja.

Quando cristãos de todos os segmentos sociais e culturais, de todas as situações de vida e denominações sentirem em seu espírito um eco nítido daquilo que o Espírito de Deus diz à Igreja, eles começarão a funcionar claramente como um corpo, a ouvir globalmente e agir localmente. Deixarão de pedir que Deus abençoe o que fazem e começarão a fazer o que Deus abençoa. Na própria vizinhança se congregarão em igrejas nos lares e se encontrarão para cultos festivos que abrangem a cidade ou região toda.

Você também está convidado a aderir a esse movimento aberto e dar a sua própria contribuição. Dessa maneira provavelmente também a sua casa há de ser uma casa que transforma o mundo.

Extraído e adaptado de Gruponews – Igreja nos Lares.

Leia também um excelente complemento a este texto: "Sem SER igreja, como congregar?", de Regina Farias.

11 comentários:

Conexão da Graça disse...

René meu querido, que felicidade poder ler um texto como esse, e saber que O Corpo de Cristo não é monopólio de nenhum gestor eclesiástico.
Apesar de saber que existem excessos e distorções em todas as esferas de espiritualidade que se valem do Evangelho para praticar a fé, como já disse em outro comentário aqui no seu blog,bem como coisas boas e admiráveis nas várias expressões de "cristianismo", confesso que sou um admirador desse tipo de dinâmica nos lares.
Na minha ótica é uma maneira mais simples, consistente de se viver a comunhão e a fé em Cristo, sem as estruturas eclesiásticas que precisam de logística e gestão meio que empresarial para se manterem e com frequência fazendo das pessoas clientes de um produto religioso.
No meu blog coloquei a disposição para download, vários livros que tratam dessa questão, livros que foram gentilmente cedidos pelo Luciano Silva do site Irmãos em Balneário de Piçarras.
Tenho essa inclinação desenvolvida em mim por influência do meu primeiro pastor, que sempre tentou transicionar a denominação estruturada para essa forma de praticar a fé.
Infelizmente a maioria das pessoas gostam de "programas espirituais", e acham que essa maneira de comunhão não traz o "glamour" e a "experiência sensorial" que as super produções denominacionais proporcionam, apesar de não confessarem isso abertamente.
Sempre converso com ele, e percebo uma certa frustração em seu coração, pois a maioria esmagadora da igreja é contra a transição.
Um livro muito bom apesar de muito criticado que trata do assunto e que nós conhecemos é o "Por que você não quer mais ir a Igreja".
Um ABRAÇÃO meu irmão, e continue com a série.

Franklin

René disse...

Franklin, meu querido,

Pra mim, também foi grande a felicidade, ao me deparar com esse texto. Eu estava mesmo escrevendo sobre o assunto, inclusive o título desta postagem seria o título do meu texto, quando um irmão com o qual congrego, o Jessé, publicou um pequeno trecho dele em seu blog e me mostrou. Concluí que não seria necessário escrever sobre algo já tão bem descrito e na mesma linha de pensamento.

Você está certo: existem excessos e distorções em todas as esferas de espiritualidade, nas várias expressões de cristianismo. Isto é inerente ao homem, como resultado de sua soberba. Por isto, a 'permissão' para o conduzir do Espírito de Cristo é essencial. E eu entendo que essa forma aqui descrita é a maneira mais simples e verdadeira de se viver a fé em Jesus e a comunhão com os irmãos, sob a liderança do Espírito Santo.

É pena que seu primeiro pastor não esteja conseguindo fazer a transição. Sei que o Alan Capriles (também tem blog e participa aqui) tem conseguido êxito nessa transição, porque as pessoas envolvidas ouviram o que o Espírito dizia à Igreja. Elas rejeitaram os "programas espirituais".

O livro que você citou é espetacular, mesmo!!! Todo cristão deveria ler, mesmo que não venha a concordar com seu conteúdo.

Valeu pelo seu testemunho, Franklin!!!

Forte abraço e continue na Paz!

Adriana disse...

Meu amigo,

Não se preocupe com extensão do texto, o que cai bem aos ouvidos nunca é demais. Foi bem explicativo e na medida, pode acreditar.
Ainda que eu discordasse de cada palavras escrita não poderia negar sua profundidade.
Para quem se interessa com a vida além muros, é um prato cheio, diria que é um banquete com requinte culinário.
Gosto muito de ouvir Carlos Bregantim, que o Franlkin também deve conhecer, ele resssalta a importãncia de vivermos o Evangelho no "chão da vida", expressão que diz muito.

Ora, quando estou próxima, quando existe olho-no-olho é quase inevitável que esbarremos no verdadeiro eu do chamado irmão em Cristo e a relação ultrapassa a fronteiras do culto, toma forma de irmandade real onde há confronto, animosidades e o verdadeiro "suportar".
Fica mais difícl montar o teatro.
Os grandes aglomerados distanciam a pessoas e normatizão os comportamentos.
Comportamento normatizado serve de esconderijo.
Eu tambémm gosto muito desta vivência em pequenos grupos onde se desenvolve a comunhão, percebo com mais clareza que o crescimento espiritual acontece. Chamo esta experiência de chão da vida.



Estou esperando a continuação, espero que não seja apenas uma trilogia.


O&A

Regina Farias disse...

René,

O outro lado da questão - e a grande cilada para quem está engessado e nem aí para uma reconstrução verdadeira - é o risco de aderir ao "culto em casa" porque, de fato, cansou de ver essa coisa mecânica e sem sentido muito bem colocada no texto, ENTRETANTO insiste em permanecer no velho hábito religioso. E isso porque, movido pelo costume religioso, o fato de mudar de lugar não significa, necessariamente, que ele vá mudar de atitude, "ser igreja" enquanto respirar. Ou seja, sempre. No cotidiano. Desde as mais simples situações às mais conflituosas - apenas transferiu o culto mecânico de um espaço físico para outro. Simplesmente porque nunca se parou pra pensar no sentido real de CULTO que tem a ver com qualidade de vida em todos os sentidos. (E o grande equívoco é que, quando se fala em "qualidade de vida", imediatamente se associa a conforto material, competitividade, se dar bem, nunca ninguém associa ao que diz Jesus no "vinde a mim...")

Conheço muitas pessoas que trazem esse "culto" para "o lar" e simplesmente nada mudou. Continuam os hábitos, as regras, a santidade exterior daquele momento sagrado de "culto no lar" enquanto NADA acontece em relação ao verdadeiro culto que se projeta do próprio ser para a(e na) existência. Quer dizer: há um ritual religioso na residência, mas não o verdadeiro e constante "culto no lar" que não tem a ver apenas com determinado momento de reunião de pessoas.

Quantas vezes se diz e se ouve dizer: "caramba, passaram-se tantos anos e fulaninha não mudou nadinha..." E a fulaninha lá! Marchando pra igreja todo santo domingo, se reunindo em oração em casas, vestindo-se adequadamente e até mantendo a vasta cabeleira como passagem garantida para o céu. Mas na hora de encarar um probleminha simples do cotidiano simplesmente DENUNCIA a mentira religiosa que vive. (O mundo tá LOTADO dessas pessoas)

Ou seja, faz-se apenas uma transferência de local, quando a mudança urgente precisa ser realizada é no SER. Só que pra isso as pessoas não estão dispostas. Elas têm uma estranha atração pela performance. Adoram dizer do culto que transferiram para o lar, mas não adoram a Deus em espírito e em verdade. Adoram inaugurar uma casa de oração, mas saem de lá do jeito que entraram. Adoram estar entre os "irmãos mais chegados" e com todo aquele ritual do templo, mas nos acontecimentos que põem à prova "o fruto do espírito" só há um enooooorme vazio.

Digo isso com tristeza no coração, pois convivo com pessoas religiosas, denominacionais, que seguem regras religiosas à risca por estarem bem visíveis, mas que não estão nem um pouquinho dispostas a mudar conceitos e valores que nada têm a ver com a "mente de Cristo". Conceitos e valores que norteiam suas vidas mas que não lhes dão plenitude de vida. Preferem ser crentes, evangélicas, religiosas. Porque ser discípulo dá trabalho. É mais bacana vestir uma bela capa. Desnudar-se é se expor e isso é fraqueza para os tais.
E assim se segue nessa neurose coletiva, cheirando o ópio impregnado nas paredes de templos transferidos para as residências.
Mudar dá trabalho, mexe com o umbigo que vai muito bem, obrigado.

Desculpe pelo longo desabafo. É que me INCOMODA demais presenciar falsa perfeição e o texto me deu essa abertura pra falar um pouco do muuuuito que tenho visto no meio religioso. Como diz o autor, os costumeiros hinos. Em templos e residências...

Obrigada pela oportunidade!

R.

Regina Farias disse...

Diante de tudo isso que se refletiu aqui hoje, a minha pergunta seria:

Sem SER igreja, como congregar?

Que fique a reflexão para que possamos ser pessoas melhores e mais verdadeiras e, em consequência, para um mundo melhor.

Abs...

João Carlos disse...

Bom dia meu querido irmão!

Fazia tempo que não conseguia tempo para passar por aqui, mas cheguei em boa hora!

Cada vez mais tenho discernido esse contexto que, no início, parece algo muito frágil e inseguro pelo fato de gostarmos de estar protegidos dentro das quatro paredes do templo, enquanto um sacerdote qualquer faz a intermediação entre Deus e os pobres mortais.

Sem notar (mas ao mesmo tempo notando), sempre me deixei ser pastoreado sem, entretanto, obedecer cegamente o que meu pastor instruia. Em outras palavras, eu aceitava o que concordava, baseado no crivo da Palavra e do Espírito Santo.

Quando vinha abobrinha eu deletava ou, em casos extremos, conversava (ou tentava conversar) com a liderança para esclarecer. Se isso persistisse ou se não houvesse um feedback de acordo, arrumava a trouxinha e partia para outra.

Hoje, entendo que o templo para mim é igual Coca-Cola: Muitos acham gostoso e não vivem sem. Já eu, tomo quando tenho vontade, só que não me faz falta nenhuma ter uma garrafa na geladeira, pois bebo outras coisinhas mais fortes...

Um abraço meu irmão!

JC

René disse...

Querida amiga Dri,

Minha preocupação com a extensão do texto se deve por ser publicação em blog, onde, normalmente, espera-se textos mais sucintos, que proporcionem uma leitura leve e rápida. Mas tenho consciência de que determinados assuntos exigem um pouco mais de cuidado e explicação, para não provocar animosidades gratuitas.

Também considerei este texto um banquete, para quem se interessa pela vida além muros. Conheci o Brega (virtualmente) através do Cláudio e sei que ele realmente usa essa expressão "chão da vida". Aliás, gosto muito desta expressão!

Fico feliz que você compartilhe dessa "proposta" também (eu já sabia - rsss)!!!

Creio que a continuação seja inevitável, Dri! O brado do Senhor, "retirai-vos dela, povo meu", ressoa cada vez mais alto, quanto mais a Hora se aproxima! Urge um relacionamento direto, mais íntimo, de cada pessoa com o Deus Pai e Criador!

O&A pra você também!

René disse...

Querida amiga Rê,

Você está corretíssima! Na verdade, você esmiuçou a já excelente observação do Franklin: o perigo da mudança de forma, sem mudança no 'ser'!

O nosso amigo Wendel, em sua entrevista lá na Rô, disse que experimentou esse tipo de mudança na forma, sem que houvesse mudança nas pessoas. O resultado, óbvio, foi o fracasso no que se esperava e almejava, porque, na verdade, foi a simples aplicação do mesmo 'modelo', fora de uma estrutura já montada. Em pouco tempo, começaram a montar uma estrutura semelhante a que havia sido abandonada.

O Evangelho é 'ser'! O Evangelho é 'relacionamento'! O Evangelho é o Reino de Deus, aqui na Terra! Isto implica em amor prático, resultante de uma opção consciente, não de u'a mera paixão emocional e irracional. E o relacionamento em amor é tanto vertical, Deus/Homem/Deus, quanto horizontal, Homem/Homem. Mas, para que seja em amor, é preciso que haja transformação constante no Homem, no 'ser', coisa que os rituais religiosos impedem, escondendo perigosamente a inexistência desse amor e, pior, a impossibilidade de se formar, na pessoa, esse amor.

Seu desabafo é uma postagem, Rê, não por ser longo, mas por seu conteúdo irretocável! Que essa consciência contagie a tantos quantos o lerem!

Sua pergunta é perfeita e muito mais pertinente que a do texto. Mais do que isto, provoca a reflexão que todos nós deveríamos fazer, fechados em nossos quartos (inicialmente), ouvindo o que o Espírito de Cristo tem a dizer sobre isto. E não é pouco...

Valeu muito, Rê!!!

Forte abraço e muita Paz!

René disse...

Bom dia, querido Jotacê!

Você toca em um ponto bastante importante: o conforto e a segurança que se tem, ao se "lançar a responsabilidade" de se viver o Evangelho, sobre um intermediário! Creio que seja isto que torna o "templo" (e toda a religiosidade) comparável à Coca-Cola, conforme você disse. É gostoso (e vicia) não ter responsabilidade com ninguém mais, além de si mesmo.

A consciência que você diz sempre ter tido, ao ser pastoreado nos moldes institucionais, é resultado do que o Espírito de Cristo dizia pessoalmente a você. E isto não é uma prerrogativa sua, porque, na verdade, é o que Ele diz a todas as pessoas. Mas o que foi prerrogativa sua, e tem sido de um número cada vez maior de pessoas, é comparar o que Jesus disse e viveu, com o que está sendo proposto pelas religiões, chegando à conclusão de que há uma grande disparidade entre ambos!

Valeu, querido amigo!!!

Forte abraço e continue na Paz!

Cláudio Nunes Horácio disse...

Meu amigo, depois de tantos comentários e do desenho bem feito da realidade da fé em Jesus, dizer mais o quê? MARAVILHOSO! Paz.

René disse...

Concordo com você, Cláudio!!! E quase que os comentários suplantaram o texto (se é que não o fizeram). Aliás, um deles, o da Rê, virou postagem, que a meu ver complementa brilhantemente este aqui!

Abração e Paz, querido amigo!